Telescópio

Telescópio

Aqui nasceu a tradição, que remonta ao século XIX, de «ver Braga por um canudo».

Mudam os tempos e as vontades, mas há locais, objetos, situações e factos históricos que merecem ser recordados de geração em geração. Quando pensamos em lugares, verdadeiros ou imaginados, começamos a pensar que objetos sobrevivem desse espaço, sobre os quais podemos contar histórias, impressões e memórias pessoais. Um desses objetos, que integram o imaginário da estância, é o reabilitado monóculo, símbolo carismático da estância do Bom Jesus do Monte, inundada pelo manto verde do Monte de Espinho, com uma vista feérica sobre a malha rural e urbana, convite ideal para a observação, encontro, fruição, repouso e um retiro revitalizador de corpos e mentes, longe do bulício da cidade dos três sacro-montes.

O «canudo» do Bom Jesus é um bilhete-postal, uma singular varanda com vista para o infinito azul. Através desta janela voltada para o exterior, viajamos e percebemos a relação com a paisagem e com a vastidão. Atrás da contemplação vem o deslumbramento com os montes tocando a altíssima linha do horizonte que namora a eternidade, com a cidade rodeada por um esplendor bucólico e um mar de verde.

Temos conhecimento da oferta de um telescópio ao Bom Jesus do Monte, algures em 1862, colocado num miradouro no lado norte do Adro, perto do Hotel do Elevador, voltado para a cidade dando origem ao dito «ver Braga por um canudo», imortalizado por Rafael Bordalo Pinheiro no Álbum de Caricaturas António Maria, onde desfilam as principais personagens: o Zé Povinho, o Pist, o Arola e o Fagundes. Rafael Bordalo Pinheiro foi a personalidade que imprimiu mais força a esta expressão e quem mais contribuiu para a sua divulgação e alcance. O alfacinha, republicano, anticlerical, várias vezes meteu os pés a caminho, para conhecer in loco, o Bom Jesus do Monte, e a vida da sociedade bracarense, como aconteceu, em 1884, para fazer a cobertura das comemorações do 1º centenário do lançamento da primeira pedra do templo.

Mas do telescópio do século XIX, não conseguimos descortinar o seu rasto. Deve-se, portanto, ao Tenente-Coronel de Infantaria Albano Justino Lopes Gonçalves, que depois de abandonar a Presidência da Câmara de Braga assumiu a Presidência da Confraria do Bom Jesus do Monte, o interesse pela aquisição deste novo óculo de longo alcance, dotado de características únicas e de grande capacidade técnica, bem como uma lente especial ampliadora.

O telescópio foi adquirido, em 1924, à casa alemã Optische Anstalt C. P. Goerz, A.G., de Berlim – Friedenau (a ata refere Hamburgo), com uma objetiva de 130 milímetros de diâmetro, designado pelo catálogo como «Terrestre Observation Telescope». O laboratório Goerz era, na época, o mais especializado na produção de objetivas, telescópios e binóculos. Nele se encontram gravados o nome do fabricante, número de série e tipo de lente, respetivamente, C.P. Goerz-Berlim, nº 24844, Prismenumkehrsatz, f. 6.40mm, nº 22066.

Com este telescópio terrestre foram despendidos dezasseis mil oitocentos e quarenta e três escudos e quarenta e três centavos, incluindo os direitos alfandegários e transportes. Inicialmente, o «canudo» foi colocado na Meia Laranja e por cada observação de cinco minutos o forasteiro desembolsaria cinquenta centavos. Dada a afluência de público a esta infraestrutura, o monóculo recebeu uma cobertura em ferro, em 1944.

O «Canudo» mantém a traça original, concretamente, o aspeto estético, os tons preto e branco sujo, bem como as funções óticas originais e toda a sua estrutura mecânica, tripé, suporte de amarração, carcaça, engrenagem da ocular e objetiva.

Como qualquer história tem imagens de suporte, entidades materiais que se despegam das coisas, também aguardamos, dos vindouros, as palavras mais belas a partir da observação do telescópio, deste ícone da colina sagrada, singular atração turística centenária, para interagir e partilhar memórias.

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O Bom Jesus do Monte, referência incontornável.